Bioeconomia ganha espaço no agronegócio

Apresentado neste ano pela Embrapa pela primeira vez na Expodireto, um projeto desenvolvido em conjunto com a empresa Carbom Brasil levará ao parque e para mais perto dos produtores o conceito de bioeconomia. Em seu estande em Não-Me-Toque, a Embrapa mostrará um biofertilizante nematotóxicos isolado e purificado a partir de diferentes plantas com origem no Cerrado brasileiro associado a um extrato de algas marinhas.
Thales Rocha, pesquisador da Embrapa responsável pelo projeto, juntamente com o empresário Leandro Anversa, ressalta que o produto já pode ser utilizado por pequenos, médios e grandes agricultores, incluindo a agricultura orgânica. “É uma tecnologia mais limpa e segura para a saúde humana, animal e para o meio ambiente e está inserida de forma estratégica na bioeconomia, agregando valor a produtos da biodiversidade e na exploração de compostos bioativos”, diz Rocha, que estará na Expodireto.
Já Anversa explica que os nematicidas orgânicos associado ao biofertilizante são produzidos a partir de fontes sustentáveis e renováveis, ou seja, ao contrário dos principais outros nematicidas que são derivados de fontes sintéticas não renováveis. E a dupla garante que o produto é adequado, por exemplo, para lavouras de soja, a maior cultura do agronegócio brasileiro.
Segundo Rocha e Anversa, a tecnologia verde Embrapa-Carbom Brasil pode substituir integralmente e de forma sustentável todos os nematicidas atualmente utilizados e que possuem alto efeito residual e toxicológico com custo reduzido entre 20% e 25% em relação aos produtos sintéticos.
Apesar de, por definição, ser um conceito que pode ser aplicado e ampliado por qualquer setor industrial, é no agronegócio que a bioeconomia tem boa parte de suas origens, segundo o presidente do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), Manuel Otero, em recente visita ao Brasil, onde esteve reunido com diferentes entidades e políticos falando sobre este e outros temas.
Otero, que definiu o tema bioeconomia como prioridade para este ano, explica que o conceito pode ser ilustrado pelo aproveitamento de biomassa e energias renováveis, mas que há um universo muito mais amplo de iniciativas a serem adotadas. “A biomassa muitas vezes não é utilizada e tem um potencial imenso na agricultura, mas também estamos preocupados com o tema do uso de agroquímicos nas lavouras, que são necessários, mas têm de ser usados de forma adequada e nas quantidades certas e, quando possível, substituído por biofertilizantes”, ressalta Otero.
Para o presidente do IICA, outro bom exemplo que une necessidades industriais e empresariais à sustentabilidade e à agricultura é a cadeia do plástico. Alvo de inúmeros problemas causados à vida marinha, diz Otero, o material poderia ser substituído por similares biodegradáveis, feitos por diferentes grãos, como o milho.
“Em vez de pensar somente na produção de commodities, que sempre dependerá de preços que oscilam no mercado mundial, os produtores precisam pensar em novas tecnologias e uso para o que produzem”, ressalta o presidente do ICCA.

O que é bioeconomia

O IICA define como bioeconomia a utilização intensiva de conhecimentos em recursos, processos, tecnologias e princípios biológicos que visem a produção sustentável de bens e serviços em todos os setores da economia.
 
Inovação premiada 
Por características como manutenção do aumento da produtividade, redução da contaminação dos solos, nascentes e lençóis freáticos, equilíbrio da biodiversidade e produção de alimentos mais seguros, o biofertilizante Carbom-Brasil recebeu, em 2018, o Prêmio Brasil Bioeconomia 2018 da Associação Brasileira de Biotecnologia Industrial (ABBI) na categoria Melhores Ideias.

Sistema de produção é excelente oportunidade para agregar valor ao campo

Dar novos e racionais usos para recursos naturais ainda não utilizados ou desperdiçados, pode ser considerado um mantra da bioeconomia. E para o presidente da Associação Brasileira de Bioinovação (ABBI), Bernardo Silva, o agronegócio tem na bioeconomia uma imensa oportunidade de aumentar o valor agregado de sua produção e mesmo acrescentar valor ao que ainda não tem. Os exemplos são muitos.
Silva relata como aproveitamento de resíduos agrícolas ainda pouco aproveitados a palha de canha, milho e mesmo soja e resíduos da indústria madeireira, entre outros produtos, para geração de energia por meio de biomassa. “Adotar o uso de biomassa como fonte de energia muitas vezes depende apenas de uma decisão estratégica da empresa, que em alguns casos não adota o sistema mesmo tendo matéria-prima para isso”, alerta Silva.
Na contramão do preço das commodites, diz Silva, usinas de produção de biodiesel a partir do milho têm mudando o cenário do grão, em termos de preços e liquidez, entre produtores do Mato Grosso. Menos imponente, mas que pode ser igualmente rentável e importante economicamente, diz o presidente da ABBI, é a produção de cosméticos a partir de produtos naturais.
“A vasta biodiversidade brasileira tem espaço para ser melhor explorada tanto pela indústria de cosméticos quanto medicinal. Com ganhos que podem ser melhores do que os obtidos com lavouras de commodities. Isso é bioeconomia”, pondera Silva.
Na maioria dos casos, de acordo com um estudo do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), a biomassa agrícola residual não tem aproveitamento produtivo adequando na América Latina em geral. E inclusive representa custo econômico e ambiental ao produtor. O levantamento do ICCA estima que 20% do total colhido de arroz é representado pela casca, ainda pouco utilizada. E o mau uso do recurso não se limita, claro, às lavouras. Na pecuária, o desperdício após o abate de um bovino chega a 12% de seu peso em pé.
Um exemplo inusitado que pode agregar renda e novos usos na aquicultura é destacado pelo presidente do IICA, Manoel Otero. Em recente visita ao Brasil, falando sobre o tema, ele conta que conheceu um interessante novo produto medicinal extraído da criação de tilápias, peixe de água doce criado açudes. “Na medicina também surgem a cada dia novos usos para diferentes coisas. No Brasil, por exemplo, há uma pele extraída da tilápia para curativos e recuperação de queimaduras”, destaca Otero.